Por Daniel Moricz
Olá Amigos,
Hoje venho abordar um tema que julgo ser de pontual importância. Os "crentes" do Santo Daime.
O fanatismo é prejudicial em qualquer religião. É ele o responsável por
transformar um hábito sadio e a convivência pacífica e amorosa entre os
integrantes de um grupo religioso em doença e guerra contra aqueles que
não partilham das mesmas ideias.
É muito comum criticar os Evangélicos no que diz respeito ao fanatismo
deles, comentários do tipo: "Aff, não aguento mais essas canções
evangélicas", "Agora tem até moda evangélica", "Que absurdo, esse povo
vive querendo doutrinar e convencer os outros de suas convicções".
Verdade, muitos evangélicos fazem tudo isso, e até mais. Mas será que em
outras religiões, e mais particularmente agora me referindo ao Daime, é
tão diferente assim?
Esses dias, aqui no blogue foi postada uma entrevista com Marcelo Del
Debbio, estudioso espiritualista, já experimentou Daime, mas não é
ligado a religião. A opinião dele sobre os Daimistas é a seguinte: "Os
daimistas não são pessoas más, como as igrejas e até mesmo os espíritas
ficam falando, mas em geral são muito pouco estudados e informados
sobre o que estão fazendo. Acabam se tornando "crentes de Daime" quando
deveriam estudar e pesquisar mais e entender aquilo que estão fazendo
ali: suas consequências e implicações".
Essa colocação dele me fez pensar um bocado e no tempo que tenho estado
na doutrina me deparei com situações que demonstraram claramente que
sim, há "crentes" no Santo Daime.
Façamos uma análise organizada do assunto. A doutrina é muito bela, rica
e cheia de ensinamentos para aqueles que buscam de verdade aprender e
se desenvolver espiritualmente. Hinários como o do Mestre Irineu,
Germano Guilherme e Maria Marques (Maria Damião), são preciosidades em
esclarecimentos e lições que parecem simples, mas são extremamente
difíceis de serem seguidas.
Os trabalhos são cheios de significado e processos que se bem analisados
fazem, dentro do contexto, todo o sentido. O fardamento é algo muito
sério e representa que aquele fardado agora faz parte de uma égregora
voltada para o bem e a iluminação. O fardamento é um processo iniciático
e é um passo que deve ser muito bem considerado e analisado antes de
ser dado.
O cruzeiro de duas faixas horizontais (Cruz de Caravaca) avistada por
Mestre Irineu em sua primeira experiência com Ayahuasca é cheia de
significados místicos e espiritualistas que remetem não só ao
Catolicismo, como também à própria árvore da vida.
Padrinho Sebastião, foi responsável por uma bela e admirável reforma e
expansão da doutrina, trazendo elementos do espiritismo e de outras
linhas religiosas. Mas ele não trouxe estes elementos por acaso, o
Padrinho era um buscador e tudo aquilo incluído por ele na doutrina
fazia todo o sentido, ao menos na época.
O grande problema é que em muitos casos, parou-se de buscar. O comodismo
tem tomado conta em muitas igrejas e infelizmente a meu ver, o Santo
Daime tem se tornado cada vez mais uma compilação de crenças Católicas
(base da doutrina), umbandistas e espiritas. Não que não se deva
aproveitar o que é bom em cada uma das diferentes doutrinas, pelo
contrário, o verdadeiro buscador se identifica pelo questionamento e
avaliação daquilo que pode ser verdadeiro e é bom. A questão é que
muitos, muitos mesmo, pararam de questionar. Não sei se por comodismo ou
por fanatismo, mas simplesmente pararam.
Tomam os hinos cheios de significado apenas ao pé da letra. Esquece-se
de ler as entrelinhas. O fardamento passou a ser um evento de moda.
Muitos querem se fardar porque acham a farda "linda". Não se sabe em
geral que o cruzeiro é a representação da Cruz de Caravaca e muito menos
se tem ideia das representações místicas da mesma. Lê-se a bíblia, mas
interpreta-se a mesma da mesmíssima maneira que os evangélicos o fazem,
ou seja, ao pé da letra. O estudo teológico e significativo passa longe.
Acredita-se em reencarnação, Karma, vida espiritual, psicografia e até
em passividade, mas ignora-se completamente o trabalho mais completo
feito sobre o assunto, a codificação de Kardec. Hoje, dá-se muito mais
importância a sinaizinhos e pezinho pra cá ou pra lá, disputas para
ficar na primeira fila ou para ser puxadora, se meu maracá e minha farda
são mais bonitos do que os seus, do que para o que realmente importa: O
estudo.
Aliás, há uma disputa para ver quem canta mais alto, ao invés de se
preocupar em se preparar e se organizar para que cada um cante dentro de
sua possibilidade, sem se forçar, e assim poder cantar com o coração e
realmente sentir o que o hino está trazendo.
Mais impressionante ainda é o fato de que muitos comandantes estimulam
este comportamento e reprimem qualquer forma de busca de entendimento
fora do ambiente do trabalho. Perguntar demais, questionar, duvidar, ter
uma visão ou conclusão diferente. Tudo isso é considerado rebeldia. O
buscador é considerado "rodado". Alguns comandantes inclusive enchem a
boca para dizer "A Doutrina não é isso. a Doutrina é assim ou assado"
como se fossem os verdadeiros donos da mesma e como se esta não pudesse,
ou melhor, devesse estar sempre em desenvolvimento e evolução, como se o
certo fosse ficar parado no tempo. A doutrina é perfeita, gostam de
reafirmar. Como se algo neste mundo de expiação fosse.
Enquanto isso, aquilo que foi ensinado nos hinos, e principalmente, o
exemplo de conduta dado pelo maior de todos os Mestres, nosso Senhor
Jesus Cristo, vai ficando de lado. Pensa-se e discute-se mais se Jesus
era Deus ou não, se fazia milagres ou não, se Maria era virgem ou não,
se o Mestre tinha o controle da "Terra, da Água e do Ar", como alguns
pensam que ele tinha, ou não, se o Padrinho Sebastião era realmente a
reencarnação de São João ou não, do que se pensa sobre o que realmente
importa. Será que estou seguindo o exemplo de Jesus e seus ensinamentos
(milagres em segundo plano)? Será que sou uma mãe como Maria foi
(virgindade em segundo plano)? Será que tenho tentado seguir os passos
de meu Mestre Irineu e ser uma pessoa tão humilde, integra e séria como
ele foi (Voar e mover montanhas em segundo plano)? Será que busco ter a
firmeza, perseverança e visão que o Padrinho teve (Ser ou não São João
Batista é um mero detalhe)?
Os dogmas são o que menos importa. Mas para alguns e inclusive para
alguns comandantes, discordar ou questionar qualquer uma destas
"verdades" simplesmente significa que você não entende nada.
Aliás, assim como os crentes fazem, desconsidera-se a possibilidade de
"salvação" para qualquer um que não esteja na doutrina. Há casos de
pessoas que decidiram se afastar, mesmo que temporariamente, e tiveram
que ouvir a célebre frase: "Você está se afastando da luz, afinal, eu só
vi Jesus no Daime". Como se Jesus tivesse vindo a terra com uma garrafa
de Daime na mão e de farda.
Frases de efeito são completamente corriqueiras entre os "crentes"
daimistas. Muitas delas inclusive fazem tanto sentido quanto quando os
evangélicos usam "amém" como se fosse "tá bom?". Poderia passar horas
aqui escrevendo algumas delas.
Existem aqueles também que não se satisfazem apenas em achar que o Daime
é o único caminho da salvação. Acreditam que sua igreja sim, é a única
certa e a única que pode levar a nova era, num caso típico de fanatismo
não apenas pela Doutrina, mas também por um centro religioso.
Francamente! O Santo Daime é muito maior do que apenas uma igreja e o
Cristianismo muito maior do que o Santo Daime.
Caridade? Tão pregada pelo Mestre? Ah sim, fazemos Daime! Essa é nossa
caridade! Além disso, vir aos trabalhos também já é caridade suficiente!
Enquanto isso ficamos para trás daqueles mesmos evangélicos que
criticamos tanto, afinal, enquanto estamos bailando e cantando, muitos
deles estão lá no meio da Cracolândia distribuindo sopão. Missão que
gostaria muito de ver os Daimistas realizando.
E o pior, a maioria dos daimistas não sabe responder uma pergunta muito simples: Qual é a doutrina do Santo Daime?
Resumindo, sinto, que em muitos casos, estamos preocupados com muitas coisas. Menos com o que realmente importa.
Se você está com qualquer um destes sintomas, cuidado! Você pode já ser, ou estar a caminho de se tornar um "Crente" do Daime!
A Doutrina do Santo Daime é a mesma de qualquer outra doutrina Cristã. É
aquela ensinada por Jesus e que por ser tão simples é tão difícil de
ser seguida: Amai a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si
mesmo. Esta é a lei.
Princípios doutrinários (Consagrar o Daime, hinos, bailado, farda, uso
de maracá e etc.) são muito diferentes de procedimento doutrinário. E
sinceramente não consigo ver nada no hinário do Mestre, que é o hinário
base, que fuja da máxima de Jesus.
A doutrina é belíssima, mas não é perfeita, assim como nenhuma outra.
Creio que a busca e a evolução, o aprimoramento devam ser constantes.
Como seria possível buscar a evolução dentro de uma Doutrina
estacionária?
O Daime tem muito a ensinar e é um veículo fantástico. Grande
facilitador de entendimento e de esclarecimentos, mas nossa parte é
intransferível. Sem estudo, fica difícil o Daime trabalhar e trazer as
elucidações e respostas que tanto queremos. Sabemos bem que no Daime,
não há como se esconder de nós mesmos e da verdade, mas a verdade de
cada um é limitada por seu nível de consciência. Devemos examinar a
nossa, buscar e expandir para que cada vez mais possamos caminhar em
sentido a luz. Sair do comodismo e se contradizer são ações
imprescindíveis para aqueles que buscam evoluir espiritualmente.
Eu aprendi a amar o Daime e também os Daimistas. Vejo a clara melhora
moral na maioria daqueles que se juntam as suas fileiras. Mas ainda
acredito que o crescimento possa ser maior. Por isso, jamais amigo
Daimista, aceite quando alguém te der uma explicação do tipo "Por que é
assim", ou "Por que estou há mais tempo na doutrina e sei disso", afinal
pode ser até que quem esteja falando tenha mais tempo de doutrina, ou
seja mais velho. Mas e quanto ao espirito? Será que o espirito dele é
tão evoluído quanto o seu? Impossível saber. Devemos respeitar o
conhecimento de cada um, escutar a todos sem distinção e analisar para
buscar nossa verdade. Todos têm a ensinar e a apender. Ninguém é
superior, ou pode se considerar mais sábio do que outrem.
Vamos buscar sair deste ciclo e levar a doutrina a outro patamar. O
patamar da busca verdadeira, sem conto da carochinha, sem dogmas
inexplicáveis e sem alguém que diz que "É assim porque me foi revelado e
sou mais evoluído do que você".
Vamos deixar a arrogância de lado e assumir a posição humilde que todo o
estudante deve ter. A humildade que todos nós devemos ter, a humildade
que Mestre Irineu teve enquanto aprendia com a Rainha da Floresta, que
até ensiná-lo a cantar ensinou. Vamos buscar entender o motivo por trás
de toda a ritualística dos trabalhos e se necessário, questioná-los! Nem
sempre tudo deve ser exatamente como era há 100 anos, oras!
Vamos buscar a caridade verdadeira, aquela que se estende para fora da
igreja e dos irmãos da igreja. Vamos amar ao próximo independentemente
de onde ele venha. Vamos visitar instituições, dar atenção, fazer
campanhas de arrecadação de alimento, vamos viver a caridade que o
Mestre pregou! Tenhamos amigos de outras Doutrinas e aprendamos a
respeitar e escutar pontos de vista diferentes, afinal, não somos os
"escolhidos". Todos aqui na terra são o povo de Deus. Deus é um só para
todos, Daimistas ou não e não seria justo como é se tivesse preferência
por um grupo ou por outro.
Acredito no potencial de cada irmão daimista. Acredito que se chegou ao
Daime foi por uma vontade inerente de ser o melhor que pode ser.
Acredito na nova geração de Daimistas que vem com sede de saber, de
evolução e mudança. Acredito no Daime e acredito que pode ser uma
doutrina cada vez mais bela e completa, mais do que já é.
Eu acredito. acredite!